Quarta, 05 Abril 2023

As Duas Verdades

Escrito por Kalu Rinpoche
  • tamanho da fonte diminuir o tamanho da fonte aumentar o tamanho da fonte
  • Imprimir
Avalie este item
(4 votos)
(Tempo Estimado de Leitura: 2 - 4 minutos)

A crença errônea que dolorosamente condiciona a todos os seres na existência cíclica surge da ignorância.

Essa ignorância é uma ausência de consciência sobre a verdadeira vacuidade da mente e das suas produções. De fato, a crença errônea é a ignorância sobre o verdadeiro modo de existência de todas as coisas.

Todas as coisas, todos os fenômenos, todos os objetos de conhecimento - isso é, o universo externo e todos os seus seres, tudo que experienciamos em termos de formas, sons, sabores, odores, objetos tangíveis e objetos da consciência mental - tudo o que somos e que podemos conhecer, manifesta-se pelo poder das tendências da mente, que são essencialmente vazias.

A mente não é existente ou não-existente. Do mesmo modo, os fenômenos que ela produz não são completamente ilusórios nem completamente reais. Como nós os experienciamos ordinariamente, eles são relativamente reais, mas de uma perspectiva absoluta, essa realidade relativa é ilusória.

Todas as coisas podem ser vistas de acordo com dois níveis de realidade: o nível relativo, ou convencional, e o nível absoluto, ou último. Estas duas verdades correspondem aos dois pontos de vista, às duas visões da realidade: a verdade ou visão relativa é convencional ou relativamente verdadeira, mas absolutamente ilusória; e a verdade ou visão absoluta é definitivamente verdadeira, a experiência autêntica além de toda ilusão.

Todas as percepções samsáricas são experiências da verdade relativa. O nirvana, que está além das ilusões e do sofrimento do Samsara, é o nível da verdade absoluta. Portanto, por exemplo, as experiências de um ser do reino infernal são bastante reais do ponto de vista relativo, enquanto essas percepções são ilusórias de uma perspectiva absoluta. Isto significa que um ser que se encontra em um reino infernal realmente experiencia sofrimento lá: desta perspectiva, suas experiências e sofrimento são reais e totalmente infernais. Mas do ponto de vista absoluto, o inferno não existe; ele é realmente apenas uma projeção, uma produção da mente condicionada, cuja natureza é a vacuidade.

O sofrimento vem do reconhecimento da vacuidade das coisas, o que resulta em atribuirmos a elas uma realidade que verdadeiramente não têm. Este apego às coisas como sendo reais sujeita-nos a experiências dolorosas.

Podemos ter uma melhor compreensão disto ao usar o exemplo de um sonho. Quando alguém tem um pesadelo, essa pessoa sofre. Para o sonhador, o pesadelo é real; de fato, é a única realidade que o sonhador conhece. Mas ainda assim, o sonho não tem realidade tangível e não é verdadeiramente "real"; ele não tem realidade fora da mente condicionada do sonhador, fora do próprio karma do sonhador. Do ponto de vista último, é de fato uma ilusão. A ilusão do sonhador está em falhar no reconhecimento da natureza de suas experiências. Ignorante do que elas verdadeiramente são, o sonhador considera sua própria produção - as criações de sua própria mente - como sendo uma realidade autônoma; assim deludido, ele é amedrontado pelas suas próprias projeções e, portanto, cria sofrimento para si mesmo.

A delusão é perceber como real o que verdadeiramente não é. O Buda Sakyamuni ensinou que todos os reinos da existência cíclica ou condicionada, todas as coisas, todas as experiências são, em geral, aparências ilusórias que não podem ser consideradas nem verdadeiramente reais, nem completamente ilusórias. Ele demonstrou essa natureza dual usando o exemplo da aparência da lua sobre a superfície de um copo d’água:

"A natureza de todas as coisas e todas as aparências é como o reflexo da lua sobre a água".

A lua refletida sobre a superfície da água é real enquanto for visível lá, mas sua realidade é apenas uma aparência relativa, ilusória, porque a lua sobre a água é apenas um reflexo. Não é verdadeiramente real nem completamente ilusória. Desta perspectiva, podemos nos referir à verdade relativa como a verdade das aparências. O Buda Sakyamuni usou outros exemplos, dizendo que todas as coisas são como uma projeção, uma alucinação, um arco-íris, uma sombra, uma miragem, um reflexo no espelho, e um eco; fora da simples aparência resultante da "funcionalidade" dos fatores inter-relacionados, coisa alguma tem existência em, de ou por si mesma.

Compreender isto pode realmente nos ajudar porque, apesar de não terem existência verdadeira, nos apegamos a todas estas coisas como se fossem reais. O objetivo do ensinamento de Buda é dissolver esta fixação, que é a fonte de todas as ilusões e é tão tenaz quanto o nosso condicionamento cármico.


Kalu Rinpoche

Informações adicionais

  • Complexidade do Texto: Avançado
Ler 296 vezes Última modificação em Terça, 20 Junho 2023
Entre para postar comentários